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POR
MINHA PARTE
Poético e orgânico 'Por minha
parte' envolve a platéia
A cor ocre que permeia a mais nova obra da coreógrafa carioca
Esther Weitzman, Por minha parte, que estreou quinta-feira
no Espaço Sesc, parece ser a senha para que se adentre no
universo coreográfico que ali se organiza. Uma das mais
fortes características da assinatura de Esther sempre foi
a relação quase orgânica com o solo, acentuando poeticamente
o peso dos corpos de seus bailarinos. Nesta obra, esse solo
todo ocre é desvelado na inspiração da coreógrafa, a região
Norte do Brasil, traduzida no cenário, no figurino e sobretudo
no próprio movimento.
Nesse sentido, chama atenção a ambiência construída no mezanino
do Espaço Sesc, sobretudo o piso rústico, de madeira, que,
além de registrar rastros de suor dos bailarinos, ainda
os encarde ao longo do espetáculo. Como a disposição das
arquibancadas é em círculo e muito próxima, as manchas que
vão se formando ali parecem misturar organicamente o público
à dança, aproximados também com a delicadeza dos cochichos
e dos abraços dos bailarinos. Uma intimidade e uma cumplicidade
se arranjam num mesmo terreno, entre quem dança e quem assiste.
Também o figurino, assinado por Gerah Diaz, permite que
o ocre e o solo se traduzam em tecidos, também rústicos,
como o algodão, mas sempre exatos em sua elegância de cores
e texturas.
Mas é no movimento e em sua qualidade que Por minha parte
se distingue. Existem lá continuidades da pesquisa a qual
Esther Weitzman vem se dedicando, como sua relação com o
peso, com o corpo que se move, deixando que o som desse
mover seja matéria bruta a ser tratada, com o par silêncio/música,
com sua dramaticidade. Assim, a trilha musical, tocada ao
vivo pelo grupo Craquelê, ao mesmo tempo que deixa mais
evidente tais relações, ocupa um espaço por vezes amplo
demais para aquele ambiente tão íntimo, sobretudo por sua
eloqüência melódica. Parece ser mesmo no silêncio que Esther
alcança momentos de exatidão, de justeza de seu pensamento
coreográfico.
Neste espetáculo, a coreógrafa pela primeira vez não toma
parte dançando, o que, com certeza, confere a seu trabalho
um acabamento mais refinado, pela chance de ela estar de
fora dele, esculpindo o espaço de modo tão delicado e ao
mesmo tempo tão vigoroso. A partir disso, mesmo com maturidades
tão diversas de seus cinco bailarinos, Esther vem conseguindo
imprimir neles seu vocabulário de movimentos, fruto de anos
de pesquisa. Claro, falta ainda amalgamá-lo naqueles corpos,
naqueles movimentos, para que o todo dos bailarinos se torne
orgânico como o todo do próprio espetáculo. Para tanto,
nada melhor que o tempo: o corpo precisa aprender com calma
o que é tecido ali em poeticidade. Por minha parte parece
ser, então, apenas uma parte desse rico processo.
Roberto
Pereira - JB Online
TERRAS
"O exílio está no centro de TERRAS, de Esther Weitzman.
A coreógrafa apóia sua obra em um forte sentido de conjunto
e respiração. Os deslocamentos do grupo ganham sentido de
território itinerante enquanto elementos individuais se
afastam e se aproximam. Esther tem, no aproveitando do espaço,
o ponto forte deste trabalho, (...)"
Silvia Soter - 01/11/1999 - Jornal
O Globo
"(…)
pesquisa de movimentos séria e clareza sobre os temas que
quer abordar fazem a diferença entre a criação coreográfica
e repetição de fórmulas gastas.(…) O programa reunindo as
duas coreografias é eficiente ao criar um pequeno universo
de gentes em movimento pela Terra, especialmente mulheres
obrigadas a escolhas de direção e ritmo constantes, mas
cujos pequenos gestos ainda lembram a feitura do pão e a
maternidade . O imaginário judaico serve apenas como base
para falar do exílio e, nesse sentido, fala também dos sem-terra
brasileiros, dos palestinos e de todos obrigados ao deslocamento.(…)"
Nayse
López - 16/12/00 - Jornal do Brasil
"(…) A trajetória profissional de Esther não apresenta um
sistema técnico formal único, porém, em seu modus operandi,
é possível reconhecer uma materialidade física intensamente
expressiva, com a capacidade de processar sínteses corporais
de autoria própria.(…)"
Valeria Cano Bravi - Curadora
Rumos Itaú Cultural Dança
Sonia Sobral - Núcleo de Artes Cênicas São Paulo
Fevereiro/2001
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TERRITORIOS
Territórios
abertos para a expressão masculina
Oito
bailarino. Oito homens. Oito territórios diferentes. É
assim que a cena se constrói no novo trabalho da coreógrafa
Esther Weitzman, Territórios, que cumpriu recente temporada
no Teatro Nelson Rodrigues e no Espaço Cultural Sérgio
Porto e agora está em cartaz no Centro Coreográfico. Uma
dança estritamente masculina e ao mesmo tempo absolutamente
contemporânea cria a oportunidade de se observar como
o vigor do vocabulário de Esther encontra paradeiro seguro
naqueles corpos.
Os
bailarinos, especialmente convidados para esse trabalho,
aceitaram o desafio de estarem juntos no palco, mas nunca
construindo um corpo só, como o de baile, do balé, com
o qual estamos acostumados. São corpos com histórias diversas,
com musculaturas e qualidades cinéticas tão singulares
que se ofertam como mapas de dança sempre plurais. Toda
essa palheta de possibilidades físicas foi inteligentemente
pensada pela coreógrafa, que administra maturidades (e,
por isso, competências) diversas através do uso de uma
idéia de tradição.
Isso
pode ser visto logo no início, quando a brincadeira Escravis
de Jó é trazida à cena. O sentido de responsabilidade
para que o jogo dê certo, a partir de uma contribuição
individual que aponta para o coletivo, já traça o rumo
do espetáculo no caminho dessa tradição. As referências
às danças de origem judaica, matéria-prima que vem sendo
burilada por Esther desde Terras, seu espetáculo de 1999,
ganham a dimensão do corpo masculino, fincando ainda mais
o pé nesse sentido de tradição. Uma tradição de hoje,
pulverizada, diversa, globalizada. Uma tradição contemporânea.
E
disso resultam momentos muito especiais, como os que oferecem
o privilégio de poder ver dançar um experiente Alexandre
Franco, bailarino e coreógrafo que possui todo um pensamento
de dança estruturado, ao lado do jovem, e excelente, Felipe
Padilha. Dois lugares tão repletos de singularidades estão
ali desvelados. Ou mesmo quando se pode ver a maturidade
com que os bailarinos Marcellus Ferreira e Marcelo Lopes
doam à cena sua parcela de história, de modo tão generoso.
Os territórios que se desvendam através da coreografia
de Esther Weitzman estão ali ao mesmo tempo em estado
bruto e em estado de prontidão. Os movimentos percussivos,
os silêncios e as danças em conjunto, elementos que se
tornaram sua marca, ganharam agora uma tradução vigorosa
de corpos masculinos. E fomentam ainda mais a esperança
de que esses territórios, sem perder sua tradição e sua
história, um dia possam mesmo dividir um mesmo espaço.
É disso que essa dança fala.
Roberto
Pereira - Jornal
do Brasil - 11/08/2006
POR
MINHA PARTE
Visita musical a um certo Brasil, um 'país imaginário'
"Por minha parte", a mais recente criação da Esther Weitzman
Companhia de Dança, que encerra temporada hoje no Mezzanino
do Espaço Sesc, deve ser entendida como um passo importante
num caminho inaugurado em "Terras", peça da coreógrafa
de 1999. Assim como no anterior, nesse novo trabalho é
a força do coletivo que constrói o terreno para a dança.
A coreógrafa se aproxima de um certo Brasil, um "país
imaginário", como ela explica no programa. A música vigorosa
do Craquelê e os bonitos figurinos de Gerah Dias ajudam
a construir a brasilidade que na dança se materializa.
A coreógrafa estruturou o Mezzanino do Espaço Sesc (local
destinado à dança) incorporado aos palcos da cidade no
início do ano como uma arena. O chão, cor de terra, remete
aos terreiros onde as danças populares acontecem. De qualquer
lugar da platéia, o espectador vê a dança e, obrigatoriamente,
o público. Essa escolha, em se tratando desse trabalho,
ajuda a criar fricções entre a dança cênica em que palco
e platéia se distinguem e as danças populares onde essa
distinção não se coloca. O modo como os cinco bailarinos
entram em cena sublinha esse aspecto: eles surgem de trás
das arquibancas, se alinham a elas e ao público, para
só depois ocuparem o centro da cena.
"Por minha parte" visita figuras de outras criações
Em "Por minha parte", Esther visita figuras e células
coreográficas de suas criações anteriores. Desse modo,
ela inscreve a nova criação numa trajetória marcada por
memórias e recorrências. O uso do chão como superfície
que atrai e acolhe o corpo inteiro, as batidas ritmadas
de pés e mãos no chão, sacudindo a poeira, e os gestos
que acariciam a terra retornam renovados nessa peça. O
silêncio entrecortado pela regularidade da percussão do
corpo no chão está ali, só que dessa vez dialogando com
a música ao vivo do grupo Craquelê. A música ajuda a criar
um recorte dentro da cena. Em alguns momentos, ela deixa
de acompanhar a coreografia e ganha o primeiro plano,
fazendo surgir uma dança diferente, mais fluida e mais
simples, evocando novamente as danças populares brasileiras.
O reaparecimento de elementos já trabalhados em suas criações
anteriores não significa, de modo algum, congelamento.
Esther costura essas diversas referências a novos elementos
com mãos sábias. Essas questões de fundo se oferecem como
um fértil território onde a dança de Esther Weitzman se
desenvolve e se renova."
Silvia
Soter
Jornal" O Globo" segundo caderno - 12/06/2005
A
VIDA FORA DA BIOGRAFIA
Solos de Dança no
Sesc estréia no Rio com grandes atuações de quatro bailarinos
"Um espetáculo de bailarinos, mais do que de dança:
talvez seja essa a impressão que resulta dos quatro trabalhos
da primeira semana da nova edição do Solos de Dança no
Sesc, que se iniciou nesta quinta-feira. (...) O trabalho
mais consistente da noite foi o último a se apresentar,
"A vida fora da biografia", de Esther Weitzman.
Duas qualidades estão presentes ali: ternura e honestidade,
que se transformam belamente em dança. A ternura da (re)construção
de uma vida (da bailarina? da coreógrafa?) fora de sua
biografia, como tão bem fala o título da obra, remete
ao encontro inédito entre Esther e Sueli Guerra. E a honestidade
perpassa todo o trabalho, mostrando ao público como Sueli
vestiu-se justamente de Esther, trajando apenas com o
que lhe cabia. O resultado é a medida exata de uma bailarina
que se entrega à coreógrafa, deixando que a maturidade
das duas faça a dança vir à tona, mais do que qualquer
outra coisa.
Roberto Pereira - JB Online -
05/03/2005
SONORIDADES
Aproximar
a palavra escrita de Clarice Lispector ao vocabulário
da dança poderia ser o objetivo principal de Sonoridades,
e o que Esther Weitzman Cia de Dança faz com total competência.
No entanto, e mais importante, ela vai além disso. Assim
como Clarice Lispector impunha força na delicadeza de
suas palavras, Esther Weitzman encontrou o caminho da
leveza no peso de sua escrita no espaço. Ao buscar no
corpo a natureza de suas próprias palavras, Esther Weitzman
apresenta um valioso avanço em seu vocabulário coreográfico,
apontando o amadurecimento de uma sintaxe que agora se
apresenta mais rica, tornando cada vez mais reconhecível
sua assinatura nos corpos que a acompanham neste movimento
de criação.
Beatriz
Cerbino - Crítica e Pesquisadora de Dança
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